CAPÍTULO UM

EUROPA





Quando meus pais vieram para a América do Sul, fugindo de mais uma guerra que assolava a Europa, era moda corrente na sua terra dizer que quem vinha para cá eram os criminosos assassinos ou ladrões de bancos, quando não batedores de carteira, os vulgarmente conhecidos punguistas. E que o povo daqui não gostava de trabalhar. Meu pai não se impressionou, ainda mais que na sua família tais atividades eram normais.

De acordo com meus pais, a vida no velho continente era agradável, não fossem as constantes guerras fabricadas pela aristocracia decadente, mas dona das terras e do dinheiro; a cobiça da grande burguesia, que era liberal nos princípios mas covarde na prática; a dureza do frio e da neve, que se acumulava nas ruas até um metro ou mais de altura; o desagradável vizinho judeu, com seu olhar de gavião, e a perseguição pela qual passaram nos últimos tempos em que viveram por lá.

Fora isso, era tudo muito bom.

Desde sempre, a família do meu pai trabalhou na área da agiotagem ou na chamada profissão da bolsa, quero dizer, eles eram elegantes batedores de carteira e usavam as costumeiras camisas de manga larga para encobrir sua ágeis mãos de artesãos do roubo. Meu pai contava que os jornais os classificavam de resíduos da sociedade, o que o fazia rir, pois alguns de seus amigos, que o criticavam por não se empenhar no trabalho honrado e à dura jornada de quinze horas diárias, também eram chamados de resto. Naqueles tempos, quem tivesse que trabalhar para sustentar a própria família e não pudesse se dedicar aos prazeres do pensar e penetrar nos mistérios da filosofia era pobre. E a diferença entre a pobreza e o resíduo humano era imperceptível.

A aristocracia não trabalhava e por isso sobrava-lhe muito tempo para pensar e maquinar grandes batalhas. Mas se para ela era bom porque morria muita gente e com isso sobrava mais terra para seus herdeiros, para as crianças era ruim pois tinham que aprender nos livros sobre as guerras. Segundo meu pai, era uma coisa bonita de se ver a união da nobreza européia constituída de parentes protegendo seus próprios interesses.

Pelo lado da família de minha mãe, a história foi bem diferente. Sua mãe enviuvou cedo, casou novamente e com as duas filhas foi morar com o novo marido paralítico, o qual vivia em companhia do filho num apartamento térreo onde montaram um pequeno negócio para vender não só pirulitos e doces mas também batatas e legumes. Que o negócio da família seria herdado por seu irmão adotivo, ah, isso estava claro, tanto é que, para minha mãe e sua irmã, destinaram o trabalho numa grande fábrica de tecido que há muito se instalara nas proximidades da cidade. Mamãe, pobre coitada, questionou a decisão da família pois temia perder a capacidade de sentir ao observar que os trabalhadores, repetindo os mesmos movimentos milhões de vezes durante anos consecutivos, desenvolviam desordem moral apesar da aparente ordem social. Muitos eram alcoólatras, faziam baderna em casa e realizavam de maneira amadora o que a família do meu pai praticava com profissionalismo. Morriam cedo por doenças provocadas pela insalubridade das fábricas e moradias. E os filhos pequenos trabalhavam para complementar o salário miserável da família.

Foi nessa época que a vida dos meus pais sofreu uma mudança radical.

A aristocracia, junto com os parlamentares escolhidos a cada quatro anos num processo corrupto democrático, se pôs a pensar mas não conseguiu elaborar nenhuma grande catástrofe. Foi quando o futuro grande Guia da nação foi expulso da firma onde trabalhava por injusta causa - tudo o que lhe mandavam, fazia errado. Sentindo-se violado nos seus direitos por seu chefe careca, desabafou com um amigo jornalista, o qual escreveu em sua defesa. A reportagem mostrou o quanto os carecas eram exploradores e perigosos para a sociedade.

Meu pai contou que a briga poderia ter ficado restrita a eles três não fosse a grande insatisfação do povo com os resultados da última guerra que os setores pensantes da sociedade promoveram e que sobrou - mais uma vez - para os pobres. Meu pai, por exemplo, num ato de honestidade, quis comprar um relógio de algibeira em vez de simplesmente bater o de algum velho nas ruas movimentadas do centro da cidade. O problema foi que, por ninguém ter dinheiro e ele não conseguir roubar o necessário para juntar, se sentiu injustiçado, ainda mais depois de observar que o relojoeiro do seu bairro também era careca. Papai não demorou a ver nele um explorador, e se juntou ao movimento que se propagou rápido como vermes em cadáver, se espalhando por toda a nação. Em pouco tempo, o país encontrou um bode expiatório para suas agruras e com razão se uniu para combater a causa de sua desgraça. O entusiasmo foi contagiante, e como resultado, a indústria de perucas floresceu, a pesquisa científica na área da calvície e a produção de misturas contra a perda de cabelo se expandiram. As massas foram às ruas, e em conseqüência, o Guia-desempregado e seu companheiro de luta, o jornalista, fundaram o partido Novo Sabelianismo com o objetivo de perseguir todos os carecas. E o jornal que fundaram em seguida veio para responder os anseios da população que clamava por informações. No início foram abertos diretórios apenas nas cidades grandes, mas devido à intensa procura, membros destacados das comunidades se organizaram e se ofereceram a abrir representações nas cidades pequenas e mesmo em vilarejos minúsculos.

No dia seguinte à fundação do partido na sua cidade, papai foi morrendo de frio às três horas da manhã esperar diante do pequeno escritório para se registrar. Mas qual não foi sua surpresa ao se deparar com a longa fila composta por diversos amigos delinqüentes. Por mais que tentasse passar a perna nos outros, não conseguiu o tão desejado número 1 de inscrição. Teve que se conformar com o 25.

Minha avó não aderiu à concepção idealista de beleza estética e discordou da idéia de exterminar os carecas da face da terra. Afinal, seu segundo marido era dono de uma acentuada calvície que o atormentava desde a juventude. Para despistar, ele costumava puxar para frente da cabeça os ralos fios da nuca que grudava na fronte com ajuda de uma cola feita de um cozidão que minha vó preparava com ossos e peles de galinha ou peixe. Essa receita ela recebeu de seus avós que herdaram de seus ancestrais e da qual existem registros desde o ano de 1470 A.C., ainda dos tempos dos faraós. Se minha mãe não gostava dele por conta do mal cheiro que exalava da cabeça e por lhe proibir de trabalhar na venda, ao aderir à filosofia do repúdio aos carecas, passou a ter mais uma razão para odiá-lo.

As posições na casa de vovó se definiram entre radicalmente contra ou extremamente a favor dos carecas. O ambiente tornou-se tenso, o que provocou discussões acirradas entre mamãe e seu irmão adotivo, que amava o pai e por isso o defendia.

- Vou denunciar teu pai – ameaçou minha mãe aos berros, durante mais um dos intermináveis colóquios que aconteciam regularmente no seio da família.

- Se dane! - respondeu seu irmão e lhe deu uma banana. Ainda com o braço levantado, aproveitou o movimento e ofereceu-lhe o dedo médio para enfiar onde melhor lhe apetecesse.

Claro que dessa maneira os dois não chegavam a consenso nenhum e como de hábito, naquela noite, ele, chegado numa grapa, saiu batendo a porta e xingando o Guia. Mamãe nunca confessou ter tido qualquer tipo de ligação com o que posteriormente aconteceu. Mas ao retornar de madrugada, seu irmão foi abordado por um punhado de militantes do partido, os quais, organizados como só eles podiam ser, se divertiam a quebrar carros e espancar pessoas nas ruas. Evidentemente sobrou para ele que recebeu uma porrada na nuca, que o incapacitou de herdar os negócios da família. Dizer que mamãe se entristeceu, seria mentir, pois sempre que contava esse fato seus olhinhos azuis brilhavam como duas águas marinhas. Ela herdou a loja do padrasto por ser a melhor nos negócios e assumiu a direção da família.

O primeiro ato de mamãe, ao apropriar-se da loja, foi acabar com a venda de docinhos e frutas e investir tudo o que conseguiu juntar, na expansão dos negócios com perucas. No dia que foi à fábrica encomendar as primeiras cinco mil amostras, conheceu meu pai, que se encontrava no escritório recolhendo a contribuição que o diretor doava ao partido em retribuição à perseguição que fazia aos carecas. Bem que mamãe vestia uma roupa sexy, mas papai pareceu não se interessar por sua feminilidade. Afinal se encontrava em jogo uma polpuda porcentagem do volume da encomenda que ela fizera. De olho comprido, perguntou seu nome e disse que gostaria de visitá-la. Mamãe achou que ele se encantara com ela e logo lhe deu o endereço. Não demorou mais do que vinte e quatro horas para papai bater-lhe à porta na esperança de receber uma margenzinha de lucro. Raposa esperta, minha mãe o esperou vestindo-se de maneira mais sedutora ainda que no dia anterior e com lábia mostrou quem dos dois tinha cérebro. Meu pai caiu na rede como um peixe, e naquele mesmo dia convidou-a para jantar. Roupa sexy e trabalho aqui, perucas ali e comissão acolá, não demorou para os dois estarem totalmente envolvidos e até o casamento foi apenas uma questão de tempo. Os padrinhos foram nada mais nada menos que o Guia, que honra!, e o jornalista que o apoiava. Papai não nega que se tornara importante dentro do partido. Mas foi a consagração ter os dois cérebros como convidados especiais.

- Estou muito orgulhoso de mim - repetia papai, com modéstia, a todo instante no dia do casamento.

- Estou tão feliz, lobinho, por você ter me escolhido - dizia mamãe a meu pai a cada minuto.

Evidentemente o padrasto de mamãe não pôde participar da cerimônia pois fora desmascarado durante uma festa de rua umas semanas antes do casório. Naquele domingo, ao empurrar bruscamente sua cadeira, a mão escorregou da roda e o cabelo descolou da parte frontal da cabeça, deixando-o exposto ao achincalhamento da vizinhança. "Que vergonha!", foi o que mamãe conseguiu dizer durante todo o percurso de volta para casa. Agora todos sabiam que sua família havia vivido uma farsa. Foram desmascarados e confrontados com a verdade nua e crua! Minha mãe só chorava de raiva ao lembrar como todos apontaram para seu padrasto aos gritos: "careca, careca, careca!" O pior de tudo foi pensar que caso sua mãe decidisse protegê-lo da perseguição dos vizinhos e autoridades, eles teria que se esconder por tempo indeterminado.

A meta do Guia era tomar o poder a qualquer preço e para isso só não vendia a mãe porque esta já morrera e o pai ele não conhecera. As lendas em torno dele lentamente começaram a tomar corpo, e segundo boatos, ele costumava ficar horas a fio de pé com o braço direito estendido para cima, treinando para as solenidades e grandes desfiles que planejava organizar.

Membros do partido freqüentemente invadiam bares e centros culturais freqüentados por carecas. Nessas ocasiões quebravam tudo que encontravam pela frente, inclusive a cabeça dos idosos que traziam carecas mais acentuadas. Numa ocasião, bateram a de um na quina da mesa onde ele jogava baralho e riram com o barulho oco que produziu.

- Desse não têm nada dentro - falou um dos valentes companheiros de papai, se referindo à cabeça quebrado do desgraçado.

Bem que papai naquele dia aconselhara os gorilas, que os acompanhava, a deixarem seus porretes de lado e tentarem o diálogo, mas parece que nessas horas as pessoas perdem a razão e o controle sobre si mesmo. Como conseqüência, quando um dos freqüentadores tentou cruzar a sala rastejando por baixo do balcão, foi puxado pela perna e levado até a rua onde lhe quebraram as mãos para aprender a não perder tempo jogando cartas.

O ego de papai crescia dia-a-dia. Logo que o poder central foi tomado, ele se apossou da Secretaria das Finanças, a qual se encontrava recheada pelas doações que os membros e simpatizantes do partido faziam regularmente. Trabalhar dentro da engrenagem do governo deu-lhe segurança. Ele não precisava mais se expor ao roubo direto ou correr o risco de ser pego batendo carteiras. Agora ele fazia às claras - através da política.

Só para dar um exemplo da importância de papai na hierarquia do movimento, gostaria de deixar registrado que na noite em que foi dada a ordem para os sabelianistas atacarem os carecas e quebrarem as vidraças de suas lojas, papai encabeçava a lista dos dirigentes. Foi dele o comando “Ou dá ou desce!” Os professores que criticaram sua atitude foram expulsos dos colégios locais em que lecionavam, e dos intelectuais foram queimados os livros.

Com o passar do tempo, os métodos racionais de convencimento do partido foram se sofisticando. Aprofundou-se o estudo da origem do Homem, desenvolveram-se teorias antropológicas, novo sistema de medição do crânio e máquinas sofisticadíssimas foram desenvolvidas para contar e diferenciar os fios de cabelo originais dos implantados, o raio-X passou a ser utilizado para detectar topetes feitos com cabelos de membros da mesma família, etc. Mas quem não se sentia atraído pelas novas propostas era convencido pela método emocional. Pregavam cartazes nos muros das cidades com fotos de crianças e jovens bem alimentados trabalhando em grupo. “Somente juntos atingiremos o céu”, proclamavam em letras garrafais. “Tu não és nada, teu povo é tudo”, reproduziam o que dizia o Guia. “Teu corpo pertence à nação e tu tens a obrigação de ser saudável”, repetia incansável. Caso alguém tentasse se desvencilhar dos convincentes argumentos, o partido relembrava aos indecisos os horrores da Revolução Francesa; e se o indivíduo insistisse em procurar um caminho fora dos ideais do Guia, era aterrorizado com um futuro comunista. “O presente somos nós!”, repetia a cada discurso.

Meses após o casamento, como presente, Papai foi promovido e transferido para o sul do país, exatamente para a cidade onde o movimento sabelianista surgiu. Ele recebeu uma casa para morar um pouco maior do que o quarto e sala que habitara anteriormente. Os oito dormitórios - fora as quatro salas - foi exigência de mamãe que planejava parir muitos rebentos. Seu desejo era corresponder à política do partido que estimulava as mulheres a gerarem muitas crianças. Amigas suas receberam medalhas ao atingir a marca dos sete filhos. Mas a consagração mesmo, vinha com o décimo. E com o décimo quinto, a mulher recebia a medalha mais importante, equivalente a morrer matando pela pátria no campo de batalha.

Bastou mamãe botar o pé na nova casa para engravidar, o que a estimulou duplamente a se engajar na nova tarefa de planejar e decorar os quartos das diversas crianças. Mas claro que ela não fez tudo sozinha. Para isso, papai arranjou, com a direção local do partido, vários carecas que trabalharam muitas horas sem nada receber. Mamãe dava apenas as ordens. Ao perguntar-lhe se o fato de não os ter pagos não teria sido uma forma de escravidão - desde que eles não fizeram o trabalho por achá-la simpática nem bonita - ela respondeu que não, pois não eram chicoteados nem colocados a ferro.

Quase esqueci de contar que ao casar, mamãe abriu mão e passou a loja de perucas para sua irmã, Paula, que assumiu a administração. Infelizmente sua irmã não tinha o mesmo tino comercial que ela, e dentro de alguns meses a venda caiu ao ponto de não mais dar lucro e ter que cerrar as portas por falta de clientes. Mamãe era realmente a alma do negócio! Comprar e vender estavam no seu sangue, assim como respirar e sonegar impostos. Por isso mesmo, se ressentia pelo partido excluir as mulheres dos quadros de direção, o que de certa maneira era compensado pela valorização do status de dona de casa. O Guia dizia que lugar de mulher era na cozinha, cuidando de criança e obedecendo às ordens do marido. Apesar de discordar, ela aceitava por amor ao meu pai e à causa, e ajudava no que podia, inclusive, organizando festas e bazares.

No terceiro mês de gravidez mamãe se entalou com um caroço de abacate. Um capitão de um submarino trouxe o bendito da América do Sul e lhe presenteou, sem, no entanto comunicar-lhe que da fruta só se comia a polpa. Não preciso dizer que a falta de ar fez com que perdesse a criança e que dali em diante tomasse aversão a abacate. Após aquele incidente, várias gravidezes se sucederam, porém, todas fracassaram logo no início, impedindo mamãe de realizar o moto dos sabelianistas que propagavam a geração de crianças como ração de canhão. Quanto mais o tempo passava e nenhuma criança ocupava sequer um dos lindos quartos decorados com esmero, o impasse aumentava, gerando tensão entre meus pais. Desiludida, mamãe propôs que papai arranjasse outra mulher. Fez inclusive uma carta ao partido conclamando as esposas, que não conseguissem atingir a meta de dez crianças, a abrirem mão do egoísmo da monogamia e aderissem à poligamia. Tudo pelo partido!, dizia cônscia de suas responsabilidades.

O Guia era puro orgulho por tamanha dedicação. O ideal sabelianista era perseguido não só pelos membros masculinos do partido como também por suas mulheres.

Mas mamãe não demorou a perceber um detalhe. Sempre que se encontravam para tomar café com bolo, as esposas traziam suas recas de filhos, enquanto ela nada tinha a mostrar. Ela passou, então, a evitar os convites e a se isolar em casa. As amigas deixaram de visitá-la e as noitadas para os jogos de cartas rarearam. As encomendas para os bazares desapareceram e por fim, mamãe entrou em depressão até o ponto de papai acreditar que morreria.

Com o início da guerra, o isolamento por qual passava foi esquecido momentaneamente. Mas de acordo com que os fronts de batalha se expandiam e a necessidade por soldados aumentava, os olhares enviesados contra mamãe se acentuaram. Mesmo os meninos entre seis e oito anos já eram chamados para defender a pátria. E mamãe não tinha nada a oferecer.

Um dia, quando sua cabeleireira confessou-lhe o desejo de emigrar, perguntou-lhe a razão.

- Não que eu tenha qualquer relação com carecas, mas quase não tenho mais clientes. Todos se negam a cortar os cabelos com receio de serem taxados de careca. Além do mais não compactuo com esse movimento; acho que as pessoas não podem ser julgadas apenas pela aparência externa.

Minha mãe ouviu o desabafo, mas nada comentou. Ela sempre fora a favor da perseguição, acreditara com convicção na pureza dos ideais sabelianistas. No fundo não gostava de ouvir argumentos contrários às suas crenças. Porém, desde que passara a sofrer na própria pele os desígnios da natureza - incapacidade de segurar uma criança no útero - e rejeição por parte dos conterrâneos por algo que lhe era inerente, começou a perceber que uma moeda era feita de dois lados. Carequice não era opção. Tal fato não tornava ninguém melhor ou pior.

- Bom era o tempo em que as pessoas se sentiam livres para usar o cabelo do jeito que quisessem - desabafou a cabeleireira que se chamava Isolda.

- Você tem algum plano? - perguntou mamãe. Estava curiosa e surpresa ao mesmo tempo por descobrir que existiam outras possibilidades na vida além de perseguir os outros.

- Ainda não sabemos bem - respondeu Isolda insegura em passar informações a alguém de dentro do partido.

Daquele dia em diante a conversa não saiu da cabeça de mamãe que passou a freqüentar o salão três vezes por semana. Conversa vai, conversa vem, meus pais viram que tinham algo em comum com a cabeleireira casada com Wagner: o desejo de fugir daquele mundo onde a questão estética levava todos a usar um único padrão aceitável de beleza.

Sem barulho, para não chamar a atenção, mas ordenadamente, papai iniciou, como outros membros do partido, o envio de pequenas quatidades de dinheiro e ouro para a América do Sul. Tudo foi feito na surdina por receio de que alguém do povo descobrisse e perguntasse: Nós mandamos nossos filhos morrerem pela pátria e lhes negamos o direito de viverem por ela. Por que vocês, que não geraram filhos, fogem?

Não acredito que meus pais, com a fuga, ou melhor dizendo, com a saída do país, tenham sido egoístas. Creio terem sido apenas cautelosos.